Descobrindo a vocação de químico

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O texto abaixo foi enviado por José Machado Moita Neto. Ainda bem que alguém concorda comigo que alguém que trabalha em química analítica deve ser perfeccionista. Eu ainda acrescento, que deve ser um perfeccionista quase neurótico. :-)

Descobrindo a vocação de Químico
José Machado Moita Neto (jmoita@pq.cnpq.br)

No estudo das diversas disciplinas do ensino médio já encontramos algumas simplificações “esclarecedoras” sobre o conteúdo das mesmas, por exemplo, “se fede é Química”. É claro que a brincadeira só é entendida por quem teve a chance de ter aulas práticas de laboratório e fez alguma experiência fedorenta, como a produção de gás sulfídrico.
A Química tem diversas subáreas que podiam ser caricaturadas por algum aspecto de seu fazer próprio. Obviamente as nossas digressões não servem de orientação na escolha da melhor área mas podem ser “esclarecedoras” na especialização dos futuros químicos.
Caso você seja um perfeccionista, gosta de pesar e medir tudo e de checar cada coisa nos mínimos detalhes, então você pode ser um Químico Analítico. Mas não basta ser chato, é preciso entender de estatística e dominar todas as técnicas de laboratório e as técnicas instrumentais de análise.
Dentro da Química Analítica também tem suas subdivisões mas nem me arrisco a descobrir quais são elas. A principal preocupação dos analíticos é com a água que usam: destilada, bidestilada, deionizada, água de Milli-Q, etc. A água tratada da torneira não serve nem para enxaguar as mãos.
Caso você sinta um prazer especial quando passa em posto de gasolina, visita o sapateiro ou assiste alguém tirar o esmalte das unhas, sua vocação é Química Orgânica. Esta área da Química é a que mais trabalha com solventes. Mas cuidado, cheirar solvente demais destrói a mucosa nasal. Além disso, alguns solventes são brochantes.
Dentro da Química Orgânica, ainda tem outras subdivisões. Ouvindo a conversa de Químicos Orgânicos ficamos apenas adivinhando o que eles fazem em laboratório. Por exemplo, quem só fica falando em oxidar o anel, deve trabalhar com Síntese. Quem fica discutindo a diferença entre uma cadeira e um barco, gosta de Estereoquímica. Quem tem “problema de coluna”, trabalha com Produtos Naturais.
Caso você queira fazer a mesma coisa dos Químicos Orgânicos, mas prefere vaguear por outros pontos da tabela periódica, você pode ser um Químico Inorgânico. O inorgânico, além de trabalhar com síntese e caracterização, dedica-se a criar nomes pomposos para aquilo que fazem. Por exemplo, Química Supramolecular, Nanotecnologia, Química de Materiais, Química do Estado Sólido, etc.
Caso sua matemática dê para o gasto, seu entendimento de física ultrapasse os de Newton, você pode ser um Físico-Químico. Ou seja, alguém que poderia ser físico ou engenheiro, mas optou mesmo foi pela Química. Além de saber a teoria que todas as outras áreas da Química utiliza, você deve saber fazer medidas em laboratório.
Caso você tenha medo extremo de laboratório ou seja completamente desajeitado, você pode virar um Químico Teórico ou Computacional. Ninguém vai acreditar, que aquilo você faz é Química. Então, é bom procurar interagir com outros colegas “experimentais” para ter alguma credibilidade futura.
Deixando de lado as brincadeiras, a Química é uma ciência central pelas suas múltiplas interfaces que tem com todas as outras ciências e principalmente com a tecnologia usada em nossa sociedade. As divisões dentro da Química são mais didáticas que efetivas, principalmente na pesquisa. O Químico deve gostar de todas as áreas.
Numa operação de tratamento de água para consumo humano, encontramos as teorias da físico-química, as medições da química analítica, as reações com compostos orgânicos e o uso de compostos inorgânicos. Toda a Química está junta para servir a comunidade.